Estudante de Medicina e a Pandemia


 

Caros leitores, esta é a primeira vez em muito tempo que não escrevo um texto. Creio que a última vez foi há 5 anos, no vestibular para o ingresso na tão sonhada Faculdade de Medicina de Taubaté (FMT/UNITAU).

            Não sei se conhecem como funciona ou como dividimos o Curso de Medicina, então irei elucidar um pouco sobre o assunto. São 6 anos de graduação, divididos em 3 ciclos – o Ciclo Básico, o Ciclo Clínico e o Internato.

O Ciclo Básico corresponde aos 2 primeiros anos da graduação, período em que damos os primeiros passos neste mundo completamente novo e extenso que é a Medicina – são 55 especialidades médicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e mais 59 possíveis áreas de atuação.

            O Ciclo Básico serve como um suporte para os anos subsequentes, pois é nele que estudaremos toda a anatomia e fisiologia humana (as estruturas do corpo humano e como funcionam normalmente), a relação entre patógenos (agentes causadores de doenças) e o homem. É neste período também que seremos introduzidos ao meio científico como um todo. Estudamos em cadáveres, lâminas de histologia, temos o primeiro contato com os primeiros instrumentos médicos – o estetoscópio, o esfigmomanômetro – ações voluntárias, etc.

            Na FMT somos apresentados logo na primeira semana à nossa grade curricular introdutória: Anatomia, Biofísica/Bioquímica, Embriologia, Genética Médica, Histologia, Praticas Integradoras (estudo de casos clínicos).

Somos apresentados também aos 4 órgãos da Faculdade: a Associação Atlética Acadêmica Benedicto Montenegro (AAABM, o órgão responsável pela parte esportiva da faculdade), o Diretório Acadêmico Benedicto Montenegro (DABM, responsável pela parte política), o Departamento Científico Benedicto Montenegro (DCBM, responsável pela parte científica) e o Comitê de Ética Médica de Taubaté (CEMT, responsável pela parte ética).

Finalmente somos também apresentados à Federação Internacional das Associações dos Estudantes de Medicina (IFMSA, no inglês), à Companhia da Alegria e às 30 Ligas Acadêmicas (grupos de extensão com enfoque em uma determinada área médica, na qual os acadêmicos tem um maior contato teórico e prático sobre tal assunto).

            O Ciclo Clínico corresponde aos 3º e 4º ano da graduação, momento em que de fato temos início à prática médica como um todo, com início à Semiologia – ciência pela qual o médico é capaz de criar hipóteses diagnósticas sobre a doença apresentada pelo paciente, usando como recursos a linguagem e os sentidos, aliados a todo o conhecimento médico que possui e aos sinais e sintomas apresentados pelo doente – , à Patologia (ciência que estuda as alterações orgânicas causadas pelas diversas doenças), à Farmacologia (ciência que estuda a composição e interação dos medicamentos com o organismo – um trauma para a maioria dos estudantes) e às 5 grandes Cadeiras Médicas: Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Ginecologia e Obstetrícia, Pediatria e Saúde Coletiva.

            Por último, o que talvez seja o ciclo mais importante de todos – o Internato: são 2 anos de estágios supervisionados em UBS, UPAs e Hospitais (na grande maioria das vezes Universitários). É dessa forma que aprendemos a aplicar na prática os 4 anos de estudos teóricos em sala de aula.

Salas de aula... parece que foi ontem, mas já fazem quase 5 anos que cursei minha primeira aula presencial no curso. Hoje, aulas presenciais, algo tão importante para o aprendizado, são quase uma utopia.

Estou no 10º período da Faculdade, entrei no internato com 4 meses de pandemia, o que me fez perder APENAS 2 meses de aulas presenciais, enquanto colegas da minha faculdade foram prejudicados com um período de 1 ano e 6 meses sem aulas presenciais. Considerando que há 310 Faculdades de Medicina em nosso país, (que, por curiosidade, é o país com maior número de faculdades de medicina no mundo), podemos então imaginar o prejuízo acadêmico consequente dessa situação.

Quantos médicos e médicas se formarão em suas Faculdades tendo aprendido Anatomia apenas por meio de um vídeo no Youtube? Quantos terão aprendido a fazer uma ausculta cardíaca apenas pela caixa de som do computador? Quantos profissionais da saúde entrarão no mercado de trabalho defasados por conta desta pandemia, que já dura 15 meses desde o anúncio da OMS de um vírus de origem desconhecida na China?

E que culpa os primeiranistas terão por não terem visto um cadáver ao entrarem na faculdade? Que culpa um quartanista terá por não ter tido a oportunidade de ir à uma Enfermaria coletar uma anamnese?  Que culpa os futuros profissionais da saúde do nosso país terão por conta de, no mínimo, metade de sua formação ter sido realizada por EAD? Nenhuma! Mas, quando se formarem infelizmente responderão por iatrogenias.

            E qual seria a solução para isso? Todos nós já sabemos: VACINA JÁ!!!



Gabriel Accetta, Interno de Medicina

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Descomplicando a Reumatologia 1 – Artrites Idiopáticas

Bem-estar e Saúde Afetados na Vida Estudantil

A Trajetória e o Papel do Profissional de Educação Física no Sistema Único de Saúde