E a nossa Saúde Mental?


           
Infelizmente, sabe-se que a ideação suicida é extremamente comum entre os Profissionais da Saúde, principalmente entre a parcela feminina que compõe a classe Médica, e muitos se perguntam o porquê.

Pensando então em debater tal assunto imensamente importante, porém sem a devida importância em nosso meio, podemos começar pensando que o problema se inicia com a grande expectativa que recai sobre tais profissionais desde o início da carreira acadêmica, exigindo uma maturidade psicológica a qual não é sequer citada durante a graduação. Os profissionais são confrontados com situações de extrema complexidade desde o início da faculdade e não são preparados para isso.

O estudante faz uma progressão muito intensa entre a formação tecnicista e o atendimento ao público. Ao se deparar com a realidade da Saúde Pública no Brasil, experimenta um enorme sentimento de impotência, uma vez que os agravos sociais são inúmeros, e, às vezes, maiores do que aqueles de saúde propriamente ditos.

Tal impotência mediante aos casos de fragilidade social, como os casos de abuso sexual, violência física e mental, frustram os profissionais, que mesmo com a melhor formação técnica possível, não poderão solucionar os problemas de cada paciente em sua totalidade.

Além disso, é exigido do acadêmico um grau de excelência física e mental devido à expectativa de perfeição que vem embutida socialmente após a escolha dessa carreira. Assim, podemos observar que o profissional se molda a essa imagem de perfeição, na qual não será permitida ao mesmo cometer um erro ou adquirir alguma enfermidade.

É comum, então, que o profissional não procure atendimento médico ou psicológico, ou não trate das suas enfermidades adequadamente, pois inconscientemente será constatado uma fraqueza que durante seus longos anos de formação não lhe era permitido. Infelizmente, as vulnerabilidades psicológicas vão se acumulando e se deflagram em grandes taxas de depressão e suicídio.

Com o decorrer da graduação, não há atenuação das comorbidades psicológicas, uma vez que abandonados os fatores de stress do ciclo acadêmico surgem outros inerentes à prática médica: a alta carga horária de trabalho, a atuação em ambientes insalubres - condições que ficaram nítidas com a Pandemia do Novo Coronavírus -, o manejo de pacientes debilitados e aquela necessidade exaustiva de manter a reputação médica historicamente construída. Estes fatos contribuem para o ambiente padecedor da carreira.

Segundo Schernhammer, autor de um dos mais recentes estudos acerca de suicido médico entre os norte-americanos, há um crescimento de 40% nos índices de suicídio entre homens médicos, comparados com outros de outras profissões, e um crescimento de até 130% na população médica feminina. Dessa maneira, fica explícita quantitativamente a vulnerabilidade vivenciada pelos profissionais de saúde.    

Diante do que foi exposto, é gritante a necessidade do apoio psicológico desde o início da carreira dos profissionais de saúde, que deve atuar na construção de alicerces rígidos para nos preparar para as situações de extrema complexidade que serão vivenciadas desde a vida acadêmica até a profissional.

É nosso dever nos capacitarmos tecnicamente sempre buscando a excelência, mas é também nosso dever investir em nossa capacidade psíquica, observando os possíveis sinais de alarme e procurando ajuda, sempre! Lembrando que uma boa saúde mental aliada às habilidades interpessoais da inteligência emocional são fatores importantes e cada vez mais exigidos em nosso meio e que, portanto, devem ser uma preocupação de todos.


Laís Gouvêa, Medicina Taubaté.




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