Como Está a Saúde Mental dos Profissionais da Saúde Após 1 Ano do Primeiro Caso de Covid no País?
Bom, considero que tive o
"azar" de entrar para o SUS dois meses antes de iniciarmos com as
medidas de proteção e isolamento social devido à Covid. Como ACS, nunca tinha
trabalhado na área da saúde antes e não tinha nenhuma experiência nem com a
saúde, nem com o atendimento ao público. Digamos que essa nova função exercida,
justamente nesta época, tem sido um desafio enorme para mim.
Quem passa a ser da área
da saúde no nosso Sistema Público, sabe que nenhum dia é igual ao outro, e que
pode acontecer de um tudo ao longo do seu dia de trabalho. Há quem te agradeça
pela atenção e serviço, há quem acabe com seu dia por ser de alguma forma
contrariado, há quem desmaie, chore, tenha convulsões.
O trabalho de um ACS é
basicamente realizar visitas domiciliares, fazer a busca ativa de faltosos, dar
uma atenção especial aos grupos que demandam de mais cuidado, como crianças,
gestantes, acamados e doentes crônicos, e realizar palestras, encontros que
tenham um fim educativo.
No entanto, com a
pandemia, tivemos que apoiar a equipe da nossa Unidade Básica de Saúde
realizando a triagem inicial dos pacientes ao entrar e exercendo dessa forma um
trabalho que tem mais contato com o público que frequenta a UBS.
Eu considero que, para
todos nós profissionais de saúde, a Covid teve duas fases. A primeira foi no
início da pandemia, onde tínhamos vários casos suspeitos de Covid que iam
buscar ajuda em nossa unidade, e outros vários casos que buscavam medicações
para a melhora dos seus sintomas.
Confesso que essa
primeira fase foi mais assustadora e perturbadora em relação à saúde mental: não
tínhamos proteção o suficiente, pouco se sabia sobre o vírus e suas
consequências, não havia vacina disponível e os testes eram poucos. Muitas
vezes ia trabalhar com medo de contrair a doença. Qualquer sintoma, por menor
que fosse, já era motivo de preocupação.
Fiquei várias semanas sem
frequentar a casa dos meus pais, do meu sogro, e foi uma época bastante
neurótica, solitária e deprimente para mim, parecia que aquilo não ia passar
nunca.
Com o tempo, as pesquisas
foram avançando e a vacina foi ficando cada vez mais perto de nós. A esperança
e a alegria foram aumentando. No entanto, também aumentavam os números de
casos, de mortes, de pessoas próximas que estavam contraindo a doença.
Essa é a que considero a
segunda fase da doença, que, para mim, foi muito mais dolorida, já que
evidentemente a Covid estava por toda a parte e se disseminava sem controle.
Como fica a cabeça de uma
pessoa que perdeu a avó por câncer e não pôde vê-la? De alguém que perdeu a
gerente da sua unidade por Covid? De quem perdeu pessoas queridas, pacientes
que frequentavam o posto, ou que se solidariza com a dor dos amigos ao perder o pai,
o avô, o tio?
Ainda não sei responder
porque sinceramente eu não sei. Um mês antes de tomar a vacina contra a Covid,
contraí a doença. Não sei em quais circunstâncias, nem em que dia. Só fui
descobrir semanas depois porque meu marido perdeu o olfato e paladar. Estando
quase certa de que fui em quem passou a doença a ele, fiz o teste sorológico
para a doença, que, logicamente, veio positivo.
A vacina finalmente
chegou! Mas tive que esperar mais um mês para tomá-la, já que havia contraído a
doença logo antes. Um mês se passou, tomei a vacina, e pensei que de agora em
diante tudo ia melhorar rapidamente. Ledo engano...
As vacinas vieram muito
lentamente, tem até hoje sua eficácia discutida por muitos, e o número de casos
não parou de subir. Bom, eu, que antes trabalhava em um escritório, agora virei
uma Forrest Gump da Covid. Não posso falar por todos os profissionais da saúde,
mas falo por mim.
Hoje, comparando com a
saúde mental que tinha antes da pandemia, estou muito mais ansiosa e com medos
que nunca imaginei ter. Estou neurótica – porque ainda posso contrair e
transmitir a doença.
Imaginei que tirando umas
férias resolveria o problema. Que nada. 15 dias de férias e uma semana depois
de voltar ao trabalho, todas as sensações voltaram novamente. Psicólogo ajuda?
Sinceramente não tentei, mas para mim é mais uma questão de adaptação,
aceitação e treino da mente.
É uma situação
extremamente difícil e desafiadora de se lidar. Nunca passamos por isso antes,
nem eu, nem meus colegas de trabalho. O que tenho feito é me desligado do
trabalho depois do expediente e nos fins de semana: viu os jornais? Não vi.
Soube que a vacina pode causar isso e aquilo? Não.
Precisamos dar um basta
nessa exaustão mental que estamos vivendo. Um basta para mim, que começa por
ignorar as notícias ruins, as conversas ruins, as pessoas com atitudes ruins.
Eu e muitos outros
profissionais de saúde estamos exaustos e precisamos de notícias boas, de
empatia, de sorrisos e palavras boas. Acredito que é só com gentileza,
paciência e gratidão é que vamos mudar essa rotina tão difícil que temos
vivenciado desde o ano passado.
Gisele Paiva, ACS

Comentários
Postar um comentário
Atenção